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NÉ LADEIRAS

Há uma frase no imaginário popular que diz que “quem não aparece, esquece!” e essa é uma grande verdade na maioria das vezes; porém, no caso concreto da primeira voz feminina da Brigada Victor Jara e celebrada interprete do inesquecível êxito “Sonho azul”, tal não corresponde à verdade, porque há muito que os seus admiradores suspiravam pelo seu regresso ou até somente por simples noticias suas, ela que autenticamente “desaparecida em combate” há mais de 15 anos se eclipsara totalmente não só do panorama da música em geral como também das secções de notícias... Não sei porquê, mas algo me diz que andou, qual mensageira da saudade, descalça e segura, durante uns tempos, algures num trilho de luz, rodeada por uma alcateia de lobos ou até mesmo a liderá-la, acompanhando gente como Frida Khalo, Avita, Madre Teresa de Calcutá ou Greta Garbo, a sangrar a dor sobre as areias, vivendo outras vidas sob a égide do deus da Natureza dos bichos, das pedras, das flores e dos pássaros, cumprindo um destino errante e profético onde calou trovões, engoliu nascentes de rios, marés e ondas revoltas e apagou iras de vulcões com um simples gesto ou sopro... Agora, repentinamente, como num verdadeiro passe de mágica, qual imaginária cerimónia de fadas e duendes numa noite de lua cheia, em plena floresta de sonhos, magia e encantos com grandes fogueiras, caldeirões, feitiços, poções mágicas, dançarinos e instrumentos de sopro, de cordas e de percussão à mistura, ela resolveu renascer das cinzas, vinda sabe-se lá de onde, de que distantes galáxias ou de que profundezas sem fim e brindar-nos com um novo projecto de originais – “Outras vidas”, que é um verdadeiro manancial de sons e voz e que mais que marcar o regresso da grande feiticeira das músicas representa uma verdadeira cerimonia orgásmica de prazeres auditivos, sonoros e rítmicos; um disco que por ser uma verdadeira festa, merece por isso mesmo a obrigatória presença de bombos, foguetes, gigantones e cabeçudos a par de iguarias sem fim dispostas sobre brancas toalhas de linho pois o momento é de festança, de entusiasmo e de comemoração que obrigatoriamente terá que terminar com um arsenal de fogo-de-artifício lançado aos céus para deleite visual da assistência! Com efeito, Né surge assim de supetão, em plena forma, vinda das brumas da memoria, envolta em lenços coloridos e fumos multicores, na posse de todas as suas faculdades vocais, que fizeram dela um caso à parte nos meandros da música de raiz popular e tradicional portuguesa e a catapultaram para um lugar à parte no imaginário de milhares de admiradores fieis e incondicionais nos quais eu me incluo! Orgulhosamente... O novo disco, criado e imaginado a partir da figura romana de Avita, é por outro lado, um verdadeiro turbilhão musical na arte de bem tocar uma infinidade de instrumentos populares como o adufe, cavaquinho, concertina, flauta de bisel, guitarras, braguesa e viola toeira entre outros, de cuja responsabilidade , em sumptuosos desempenhos, é do grande Amadeu Magalhães que, como se isso não bastasse, ainda assina os fautosos arranjos , a grande produção, gravação e misturas das composições do disco que ao longo de oito inspirados temas (assinados pela dupla Tiago Torres da Silva/ Né Ladeiras que aqui se revela uma compositora de mão cheia!!!) nos faz sonhar e navegar ao som de ritmos árabes, celtas, arménios, sefarditas, bascos e até de rancheras mexicanas, levando-nos em verdadeiro voo rasante para horizontes sonoros que nos fazem lembrar os universos musicais de prodígios como Carlos Nuñez, Rabih Abou-Khalil, Chieftains, Oum Kalthoum ou o basco Kepa Junkera que certamente não desdenharia assinar a composição que em beleza e apoteose fecha o novo trabalho - “Um amor feliz“ . Um projecto vocalmente brilhante, intemporal, emocionalmente intenso, sonora e instrumentalmente versátil, que destila magia por todos os poros e se assume como um dos mais belos momentos das “músicas do Mundo” editados nos últimos anos. Uma obra-prima? Claro que sim!!! CD Artez- Medicina e Arte/Né Ladeiras
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